Diversos conselheiros do São Paulo estão muito insatisfeitos com as mudanças que podem ocorrer em breve no Estatuto do clube.
Uma votação virtual está marcada para 16 de dezembro no Conselho Deliberativo e, caso as modificações sejam aprovadas, haverá alterações significativas na política da instituição.
Para que isso ocorra, são necessários 131 votos dos 260 possíveis entre os conselheiros (dos quais 160 são vitalícios)
Nos últimos dias, muitos membros da oposição tricolor entraram em contato com o ESPN.com.br e falaram em "golpe" da gestão Júlio Casares.
Na visão dos opositores, as propostas de alteração do Estatuto são "antidemocráticas", trarão "perpetuação no poder", irão "minar a transparência" e "farão o São Paulo regredir 40 anos", enquanto os rivais avançam por democratização.
Eles ressaltam que tudo está sendo feito dentro da legalidade, até porque já havia uma previsão de atualização do Estatuto em 2023. No entanto, os opositores discordam de muitas das medidas que estão sendo tomadas e falam em "imoralidade", além de dispararem contra a "falta de debate".
- Reeleição do presidente
Durante a gestão Carlos Augusto de Barros e Silva (Leco), foi extinta a reeleição para a presidência do São Paulo, quando um novo Estatuto Social foi aprovado.
Nas alterações propostas atualmente por 82 conselheiros, todavia, aparece a volta da reeleição para o cargo máximo da diretoria do clube.
Na teoria, se alterações forem aprovadas, Júlio Casares poderá concorrer novamente à presidência em 2023, quando acaba seu mandato (ele foi eleito em 2021).
- Mudança na dinâmica da elaboração da inscrição de chapas para Assembleia Geral Eletiva
No atual formato, é possível inscrever uma chapa com 55 conselheiros vitalícios, ou quase um terço das 160 vagas vitalícias.
No entanto, também é permitido que se uma ou nenhuma chapa conseguirem 55 assinaturas, poderá haver inscrição com assinatura de 40 vitalícios. Com isso, é possível haver uma Assembleia com até três chapas.
Com a nova dinâmica, porém, ocorre uma mudança: se nenhuma chapa tiver 55, pode se inscrever com 40. Ou seja: se uma chapa conseguir os 55, não será possível outra se inscrever apenas com 40.
- Diminuição no número de conselheiros vitalícios
Atualmente, o São Paulo conta com 160 conselheiros vitalícios. A proposta é derrubar esse número para 120.
No entanto, a regra das 55 assinaturas necessárias para conseguir inscrever uma chapa permaneceria, mudando totalmente a proporcionalidade (de quase um terço, vira praticamente metade).
Com isso, é avaliado que basta ter influência sobre 66 conselheiros para dominar o clube, já que, num universo de 120, sobrariam apenas 54, o que tornaria impossível inscrever a chapa pela falta do número mínimo de assinaturas.
- Mudança no Conselho Consultivo
O Conselho Consultivo do São Paulo é formado por sócios-beneméritos, ex-presidentes do Conselho Deliberativo e ex-presidentes da diretoria.
No atual Estatuto, só é dada entrada no Conselho Consultivo quando o mandato se encerra.
No novo Estatuto, porém, depois de 12 meses no cargo é dada automaticamente uma cadeira no órgão, o que dá direito a decidir quem irá concorrer a conselheiro vitalício.
- Mudança no Conselho de Administração
O atual Conselho de Administração do Tricolor conta com nove membros: presidente e vice da diretoria, três membros independentes de fora do clube, dois do Conselho Consultivo e dois do Conselho Deliberativo.
Com exceção dos conselheiros, os outros membros são todos profissionais remunerados. No novo Estatuto, acabariam a remuneração e a profissionalização, com os membros se tornando voluntários.
A oposição enxerga "queda de nível técnico" nessa mudança, já que profissionais de alto gabarito não topariam trabalhar de graça para a equipe.
"Vamos dar marcha a ré para a década de 1980"
Em entrevista ao ESPN.com.br, o advogado Fábio Mariz, que é conselheiro do São Paulo desde fevereiro de 2021, diz que as mudanças no Estatuto do clube servirão para "perpetuação no poder" dos atuais membros da situação, além de promover "concentração do poder em poucas mãos".
"Entre várias mudanças propostas, nós temos a reeleição presidencial. Fizeram isso para que Júlio (Casares) conseguisse permanecer no poder, e mais o grupo que hoje dá sustentabilidade à atual gestão, com essa nova proposta estatutária, se colocam de uma forma que vão permanecer no poder o quanto quiserem", afirmou.
"A mudança do artigo, principalmente da Assembleia Geral, que as duas chapas não tendo 55 podem ir com 40 assinaturas de vitalícios, traz grande possibilidade de ter chapa única para tudo: Ouvidoria, Conselho-Fiscal, para eleição de vitalícios, Comissão Disciplinar, Conselho de Administração, etc. Você vai tirando todos os poderes e possibilidades de fiscalização, contestação, mantendo uma simetria de pensamentos para que São Paulo não saia da mesma mão durante anos, anos e anos", acrescentou.
Mariz salienta que, caso as alterações do Estatuto entrem em vigor, será inviável manter um grupo de oposição no São Paulo.
"Com a mudança do número de vitalícios de 160 para 120, essa proporcionalidade dos 55 para inscrever as chapas, isso torna impossível ter oposição no São Paulo. A única chance é se o atual grupo de situação que está na gestão brigar e rachar", argumentou.
"Tirando isso, o buraco entre situação e oposição sempre será maior, vão destruir qualquer oposição que tiver no São Paulo e vão governar o tempo que quiserem, de forma absolutamente confortável, que é a grande discussão desse novo Estatuto, que demonstra ser extremamente antidemocrático", observou.
O conselheiro ainda ressalta que "o retorno da não-profissionalização do futebol", com as possíveis mudanças no Conselho de Administração, "vai absolutamente contra qualquer evolução do futebol" e fará o São Paulo retroceder décadas, enquanto os rivais estaduais e nacionais avançam.
"Com tudo isso, eles dão a marcha a ré para a década e 1980. Enquanto todos os outros concorrentes e rivais estão caminhando pela profissionalização, democratização, o São Paulo está cada vez se fechando mais em um grupo ou nicho político apenas, sem debater essa proposta com sócios, com conselheiros, demonstrando o caráter antidemocrático dessa sugestão de mudança estatutária", finalizou.
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